SETA DO TEMPO / THE ARROW OF TIME

Isabelle Borges apresenta na mostra intitulada Seta do Tempo um conceito e obras elaboradas especificamente para a Galeria Pinacoteca do Museu Brasileiro da Escultura.
Esta é também a primeira mostra individual da artista em um museu brasileiro.

Isabelle Borges reside na Alemanha há mais de vinte anos. Independente da distância geográfica de seu país de procedência, a artista incorpora em sua obra caracterísricas marcantes de uma arte internacional enraizada nos dois continentes. Isabelle apresenta nas obras concebidas para a mostra Seta do Tempo tendências respaldadas na tradição artística brasileira e alemã como por exemplo o concretismo e seus infinitos desdobramentos conceituais e estéticos. O concretismo surgiu na Europa na década de 50 e teve seu apogeu na década de 60 quando Max Bill lecionava na Escola de Design de Ulm. Seus tentáculos atingiram o Brasil quase que simultaneamente e foi propagado por aritstas locais como Lygia Clark, Amilcar de Castro, Franz Weissmann, e Lygia Pape.

O preceito inicial da elaboração artística em busca da forma precisa, uso de figuras abstratas e ênfase na racionalidade uniu-se com o tropicalismo brasileiro gerando uma linguagem única e necessária, principalmente após o golpe político de 1964, o que levou o Brasil a uma imersão ditatorial por duas décadas. A partir daí os artistas elaboraram obras de caráter popular e interativo camuflando assim seu ímpeto racionalista, político e transgressivo em formas geométricas repletas de organicidade destinadas ao manuseio e interatividade.

A pintura de Isabelle Borges exalta elementos subjetivos e orgânicos delimitados por formas, traços e contornos definidos criando uma dinâmica própria e diálogo entre obra e público através de seu caráter envolvente como em uma imagem tridimensional ou mesmo escultural. Eis aí o motivo de apresentá-las no Museu Brasileiro da Escultura a fim de reforçar seu caráter espacial e instalativo. O concretismo é repleto de raciocínio e ciência, características visíveis também nas pinturas aqui expostas. Justamente a ciência norteia grande parte da elaboração destas obras repletas de formas reconhecidas na técnica do origami, reproduzida nas telas pelo desdobramento de imagens e espaços inusitados, criando profundidade e pontos de convergência a reforçar esta idéia. Esta técnica de dobradura deixou de ser propagada por artesões nos últimos anos a fim de atender a ciência, tecnologia e indústria a exemplo da cátedra criada no MIT, renomado Instituto de Tecnologia de Massachussets e dirigido pelo jovem matemático Erik Demaine, o qual difundi esta técnica através de um programa específico de computador formalizando novo princípio de matemática criando ferramentas específicas para que o mundo possa se "desdobrar" de forma mais efetiva.

O desdobramento dos elementos pictóricos da pintura de Isabelle Borges encontra no local expositivo do MUBE as condições espaciais adequadas para visualização e experimentação deste universo artístico. As imagens extrapolam as telas e suas molduras individuais para darem continuidade ao seu movimento, composição de cores e traços na vivência de todo o conjunto criando assim uma imensa onda a se esparramar pelo longo horizonte da Pinacoteca. As pinturas involvem o visitante no primeiro instante pelo impacto geral do grupo de obras expostas. Em um segundo momento são as minúcias que atraem o olhar do expectador. As figuras geométricas precisas revelam colagens esparsas e discretas de elementos literários extraídos do arquivo da artista (jornais, revistas, livros) e precisamente retrabalhados e incorporados nas pinturas como mensagens dadaístas de Kurt Schwitters ou montagens visuais de Hannah Höch.

Estas colagens foram primeiramente utilizadas por Isabelle Borges em desenhos tidos como rascunhos de pinturas a serem executadas. Estes porém atingiram relativamente no início de sua existência autonomia suficiente para serem vistos como obras únicas isoladas. Na mostra Seta do Tempo trazemos também pela primeira vez para o público brasileiro uma seleção destes desenhos, nos quais apreciamos claramente a evolução das formas, os contormos precisamente delimitados e incravados no suporte artístico, assim como a exata e delicada escolha da palheta de cores oscilando entre tons pastéis e cores primárias, criando um grande contraste e desconforto inicial devido à combinação inusitada. Esta seleção pictórica extrapola o suporte artístico e se espande pela galeria criando uma superfície e ambientação única.

Seta do Tempo no Museu Brasileiro da Escultura espande a pintura de Isabelle Borges de tal forma a criar novas perspectivas espaciais e temporais a conduzir o visitante a uma imersão certeira.

Tereza de Arruda, curadora
Berlim / janeiro 2013